Blog da Leida Reis :: Literatura

De Tolstoi a Cootzee, de Clarice Lispector a Virgínia Woolf, minha grande paixão é pela literatura. Tenho um livro de contos (1991): The Cães Amarelos, e um hiato que se seguiu. Mas reconsidero hoje, com as crônicas publicadas às segundas no Hoje em Dia. Acabo de escrever um romance policial-filosófico, cuja publicação está prevista para o início de 2010. Minha carreira de jornalista até ameaçou, mas não conseguiu me desviar da escrita ficcional. Este blog é o espelho da vida literária que levo, e pode se tornar espaço de troca de ideias entre quem lê, quem escreve e quem ouve a poesia dos romances contados em miúdos. Também está aí a vida, os doces filhos, as manhãs de rabanete, e o pensamento de Platão: "Há três tipos de homens: os vivos, os mortos, e os que caminham no mar".


10/03/2010


A invenção do crime

Estou em contagem regressiva para o lançamento do meu primeiro romance, "A invenção do crime", pela Record, com orelha do premiado Moacyr Scliar.

Será dia 15, segunda-feira, no Palácio das Artes, a partir das 19 horas. Meus agradecimentos a quem já divulgou: colunistas do Hoje em Dia (Hélio
Fraga, Gustavo Mendicino, Marcelo Rios, Saliba, PCO e Sayonara Calhau), Rádio Inconfidência, patrocinioonline, rappadeangu, Revista Viver Brasil, site do PA. Espero lá os amigos e os amigos dos livros.

Escrito por Leida Reis às 08h51
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08/09/2009


 

Bolo de milho com queijo derretendo


Goiaba e pimenta. Jabuticaba e café coado na hora. Jiló, costelinha, feijão tropeiro, cenoura cozida temperada com azeite e limão. Cebola no bife, geleia de damasco no pão italiano. Bolo de milho com queijo branco derretendo. Sorvete de chocolate com moranguinhos vermelhos da casa da avó e uvas sem semente. Atravessa a rua e encontra aquele colega da faculdade, tão simpático e sorridente, que fez menos que você na profissão. Você não diz nada, para não parecer presunçoso, mas percebe que ganha mais e aproveitou melhor as oportunidades. Tudo certo, então, prometem se encontrar para um almoço, quem sabe antes das festas de fim de ano. Estava justamente enumerando coisas que gosto de comer, você diz, mas não sou especialista em gastronomia nem tenho tara por comida. Apenas lembrando de coisas gostosas como suco de abacaxi com hortelã, lombo recheado com pêssego. Ah, era você que levava uns sanduíches esquisitos, não, isso era no colégio, não era? Pois bem, continua com a mania de comida e diz que não se interessa muito por elas. Mas seguiu a carreira de historiador? Está apenas lecionando ou pesquisando, como tanto queria? Você ia responder, mas chega a esposa dele com umas sacolas e você percebe que ele não tem carro, está com um cartão de ônibus na mão e justamente vocês estão num ponto de ônibus. Vazio, sem aqueles abrigos, por isso você não percebeu. Ela, a esposa, é sorridente, tem os dentes brancos, o cabelo com mechas loiras lhe cai bem, a roupa discreta, mas de bom gosto. Ele pergunta, então, você se casou? Não, ainda não. Ia dizer, não encontrei a pessoa adequada, mas é um clichê tão clichê, que prefere ficar no ainda como se dissesse que espera um dia se casar, sim, que não será feliz se não encontrar a mulher de sua vida.

Sentindo-se um pouco mal diante daquela beldade, você se apresenta, pede desculpas e se despede alegando um encontro naquele momento.  

Continua o seu passeio sem rumo. Pamonha, farofa de ovo caipira, suflê de chuchu, frango com quiabo no fogão de lenha, doce de abóbora, batida de morango. Sorvete de chocolate com moranguinhos na casa da avó? Que lembrança pueril. Você pensa se está tudo perdido. Se está tão carente e solitário que não conseguirá dar mais um passo. Não é possível, tem que se salvar. E será agora mesmo. Entra no melhor restaurante da cidade e pede o menu. Escolhe de entrada uma salada crocante de polvo e aipo, em seguida, risoto de favas com lagosta e ainda cappelletti de pupunha com burrata ao ragú de ossobuco e zeste de limão. Saboreia tudo com prazer, esquecendo as má-criações dos alunos na escola estadual. Nem a lembrança de que gastaria exatamente um terço do salário somente naquele jantar tira seu gozo. Fecha os olhos para o mundo, abre o apetite para a vida. Só na hora da sobremesa, um leve estremecimento. A única opção era wafer de pistaches com morangos e chantilly. De novo os morangos! Decide ficar sem sobremesa, sem força para a superação. Ainda assim, sai mais leve do que entrou.


Publicado no Hoje em Dia em 7-9-2009

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Escrito por Leida Reis às 09h48
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07/09/2009


Clarice genial

VEJAM A GENIALIDADE DA POETISA CLARICE LISPECTOR E A
RIQUEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA


Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que  
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...
 
A T E N Ç Ã O
AGORA LEIA DE BAIXO PARA CIMA; PURA ARTE; PURA GENIALIDADE.

Escrito por Leida Reis às 12h01
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06/09/2009


Depois dos romances premiados, Milton Hatoum mostra seu talento no livro de contos que surpreende por mostrar que o bom romancista também consegue surpreender em narrativas curtas. Desta vez, as paisagens não se restringem ao Norte do país, mas atravessam a Europa. O destaque está no suspense de "A casa ilhada", "um oriental na vastidão" e "Bárbara no inverno". São todos tão bem escritos, que de fato não há como não nos rendermos ao escritor amazonense. Estará ele escrevendo seu nome nos tempos vindouros da literatura brasileira? Atravessará os séculos? A contar pela qualidade de seus escritos, pela premiação que já acumulou e a reverência da crítica, não fica dúvida alguma. Uma leitura agradável e rica.

 

Categoria: O que acabei de ler
Escrito por Leida Reis às 11h21
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“Manual da Paixão Solitária”, que disputa o Jabuti deste ano, é genial na sua temática e poderia se chamar “A invenção da masturbação”. Os personagens são tirados do Livro do Gênesis, desde o patriarca Judá até Shelá, seu filho mais novo, passando pelos outros Er e Onan. Em comum entre todos eles, a bela Tamar, a mulher cumprindo seu papel na sociedade machista, ela também aprendendo a amar por meio da astúcia. A narrativa, como todas de Moacyr Scliar, é rápida e inteligente. O livro é imperdível, um dos favoritos do Jabuti.

Categoria: O que acabei de ler
Escrito por Leida Reis às 11h12
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01/09/2009


 
 

As meninas de Portugal

 
O agosto que termina é inverno no hemisfério sul  e verão  no hemisfério norte. Em Portugal, por exemplo, é verão.  As sobrinhas Shara, Michelle e Goud mandam mensagens pelo Orkut. Shara diz que vem em setembro para passar 40 dias no seu país, depois de conseguir o visto, enquanto as outras duas planejam retornar ao Brasil após alguns anos. Mas tiveram esta ideia antes e adiam o retorno. Passeiam pela Europa como nós passeamos por Ouro Preto e Poços de Caldas. Mas eu nunca fui a Poços de Caldas, e vejo as fotos delas no Cirque du Soleil na Irlanda, tão fácil e natural, as três meninas sorridentes espalhadas pela Europa com os euros do trabalho duro.
Entre aprendizagens e curtições, trabalho e saudade, viagens e compras, as três transmitem à família o gosto da experiência. Quando embarcaram para a terra estranha, uma de cada vez, não imaginavam pelo que passariam, o que viveriam, quantas pessoas conheceriam em Lisboa e nas cidades vizinhas.  As três coragens de braços dados têm, cada qual, a sua vida. Cada uma o seu próprio batom, embora entrelaçadas.  Seus riscos e seus prazeres na vida que escolheram em Portugal são independentes uns dos outros, e quem diz que é melhor voltar para Minas Gerais, onde está a família e seguir o curso natural da vida de quem mora em Montes Claros?
Goud nos visitou no ano passado tão falante e engraçada, enumerando contos sobre os portugueses da sua rotina, os costumes, as preferências, a comida e os parcos banhos. Uma mocinha que terá o seu salão de beleza na cidade norte-minera, mas não sabe ainda quando. Trouxe um presentinho para cada um da família tão vasta, espalhada pelo Norte entre Porteirinha, Mato Verde e Montes Claros, por Belo Horizonte e Raul Soares, e também São Paulo e Rio de Janeiro. A família de João. Gabriel ainda carrega consigo o chaveiro com a bandeira de Portugal, mas Clarice já gastou o lápis com enfeite de joaninha. Ela levou cinco anos para rever os brasileiros, seus brasileiros, e ainda pensa se abandonará mesmo a Europa. Shara ao menos admite que não fará isso agora, que permanecerá por lá enviando notícias pelo Orkut, que sua chegada em setembro será apenas com uma bagagem maior, trazendo suas histórias, roupas e lembranças da terra que escolheu.
 
Como Drummond nunca foi à Bahia, eu nunca fui a Portugal. Mas irei um dia, em busca da origem da língua que falo, à terra de Eça de Queiroz, que a personagem de Milton Hatoum em “A cidade ilhada”, compara com Machado de Assis, acabando por defender o brasileiro. Ou será só a vingança da mulher contra o amante? Um conto belíssimo.
 
 

Categoria: Crônica
Escrito por Leida Reis às 14h40
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O quintal da mãe

 

Antes da praia, escolho entre a pescaria em Nova Ponte e a festa no Cruzeiro da Fortaleza. Imaginamos férias magníficas onde não há turismo, mas uma história de família entre Patrocínio, Uberlândia, Esmeril, um lugarejo encravado na infância com partidas de futebol no domingo à tarde. Meu pai já tinha cabelos brancos e era veloz como alazão. Seus parentes formavam o time, nós, pequeninos, a torcida, e só pelas fotos me recordo dos uniformes. Mas era na Copa do Mundo que ele sumia, ia para a cidade assistir aos jogos da seleção canarinho como se dizia, e ficávamos nos deliciando com as suas narrativas depois, fizesse sol ou chuva, derrota ou vitória. Respiramos os mesmos lugares, mas não somos os mesmos, somos é unificados no quintal da casa da mãe. Cenário montado para a quarta-feira à noite, quando sou a única a comemorar a derrota do Cruzeiro porque Clarice adormeceu antes do final. Irmãos, cunhadas, amigos dos irmãos, ninguém acerta uma aposta no bolão, que termina, entre moedas e notas, numa vasilha no alto do armário da cozinha para pagar a faxina de copos de cerveja e peixe assado.

Apesar das distâncias diárias, estamos em julho comendo nesta cozinha onde ele, o pai, nunca esteve, mas numa mesa que fez parte da morada da fazenda. A comida também mudou, as carnes guardadas em latas de gordura animal não existem, os biscoitos de forno, a pamonha feita em mutirão, a raça do cachorro seria outra se houvesse cachorros aqui, na Rua Cesário Alvim. Apenas flores, plantas que minha mãe vai cultivando vida afora. Frutas no quintal: morangos, acerola e framboesa, araçá, além de mexerica, uva, jabuticaba, cereja, carambola, mamãozinho. Bastante para uma casa no centro da cidade. Com saída para o sol, varanda e jardim de inverno. Nem tentarei descrever as flores que pendem dos vasos ou estão sólidas na terra.

A casa com o quintal é ponto de encontro. Ainda ontem, eram apenas dois irmãos a habitar a cidade, agora só Alexandre e eu estamos fora. Flávio e Aires voltaram a Patrocínio, enquanto Luís nunca saiu dela, e Ana Lúcia por quatro anos morou no exterior e outros tantos na capital. Completam este quadro que Maria, a mãe e avó, pinta, depois de um curso na Casa da Cultura. Os netos são cinco e com exceção de Gabriel, já com seus 15 anos e compromissos no Cefet, adoram levitar caminhando no quintal da casa onde, além das frutas vermelhas que eles mesmos colhem, há os passarinhos que eles espantam ou admiram: bem-te-vi, beija-flor, sabiá, pardal, pombo, sanhaço, maritaca. Pedro Augusto, Helena e Clarice fazem companhia às primas Ana Luíza e Rafaela, que também frequentam o quintal. Cecília ainda aguarda, no auge dos seus menos de três meses de vida. Que o lugar permaneça por muito tempo, dando liga à família.

 

Escrito por Leida Reis às 09h19
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24/08/2009


Cajal, Ciência e Arte

Santiago Ramón y Cajal queria ser pintor e, no mínimo, tinha muito talento para o desenho desde criança. Mas não teve a aprovação do pai. Espanhol conservador, achava que o merecimento da família estava bem acima desta pequena arte. Santiago nasceu em Petilla em 1852 e virou neurocirurgião. Tanto estudou, tanto se dedicou, que foi reconhecido como um dos maiores do mundo. Diante da falta de registro da notícia, exerço a imaginação de que o pai tenha ficado orgulhoso e se convencido de que agora, sim, o nome da família estava resguardado e muito bem projetado. Mas Cajal nunca esqueceu sua vocação de artista e então passou a desenhar o que via pela lente dos microscópios. O que se revelava nos emaranhados de neurônios de rãs, ratos, macacos, e do ser humano, ele transportava para quadrados de papel e eram desenhos tão artísticos quanto os que Santiago via nos ateliês e nas exposições que visitava.

Olhar para “os oligodendrócitos para a homeostase do ácido glutâmico” remete-me tanto à arte quanto apreciar um quadro de Pablo Picasso. Exagero puro, dirão alguns, bobagem, não é possível, afirmarão muitos, mas quem vê a obra do espanhol enxerga a sua arte, a mesma que o acompanhava desde as peraltices de menino. Até morrer, em Madri, em 1934, Santiago Cajal descobriu estruturas neurológicas que o imortalizaram. Mas foi a forma como olhava para estas estruturas que ele deixou ao mundo de modo mais profundo. O seu olhar para detalhes como, por exemplo, para “a célula de Purkinje em um caso de demência precoce” revela o artista por trás do cientista. A medula espinhal da rã, o gânglio espinhal do caranguejo de rio, estão entre os mais de 12 mil desenhos que ele mesmo tinha contado só até 1900, quando disse não restar dúvida de que só os artistas vão para as ciências.

Milésimos de milímetros da estrutura do cérebro, do cerebelo, das retinas viram desenhos bonitos de se ver, ora crus no lápis de cor amarelada, ora bem vistosos com cores berrantes. Alguns parecem mapas, outros passam perfeitamente por quadros decorativos cuja origem jamais poderia ser sonhada sem um olhar para a obra do neurocirurgião.

Disto tudo me lembro olhando as anotações feitas depois de visitar esta exposição no Palácio das Artes, quando vejo num site a imagem de uma nebulosa. A Nasa conseguiu fotografar Olho de Gato, combinando registros de dois telescópios, e a estrela brilhante cercada por uma nuvem de gás forma uma imagem belíssima, que enfeitaria a parede de qualquer sala. Isto é, então é isso que quero dizer: que ninguém mais do Santiago Ramón y Cajal para dizer o quanto as imagens científicas transmutam em arte. Arrastam para si o conceito de arte e afastam qualquer distância entre o que é meramente ciência e o que é a expressão da alma humana.

Escrito por Leida Reis às 21h44
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18/08/2009


A ternura
do sangue
de Balboa
 
O Festival de Veneza fará uma homenagem a Sylvester Stallone pela docilidade de seus sanguinários filmes “Rocky” e “Rambo”. Quem diz que o cinema dele é “cheio de ternura” é a nota divulgada pelos organizadores do evento. Não é contradição. O sangue do lutador de boxe nada mais é do que o derrame do seu sentimento. Sentimento de amor à vida, pois sem a busca da vitória (mais pelo coração que pelos punhos) não há vida, sem os hematomas horrorosos no rosto-espelho-da-alma não há nada. Os céleres e célebres filmes que foram se somando ao longo de anos cansavam quem por eles passava a ermo. Como eu, que nunca tive muita paciência com a repetição da história de Rocky Balboa num ringue, lugar aonde nunca entrarei, pretendo. Que fique clara a construção da frase, pois é preciso brincar um pouco com o português, ou não seremos seus fiéis seguidores. Mas olhando agora esta homenagem com estes termos, é possível sim, claramente, enxergar a ternura do ator e também do personagem que o persegue. Pobre Stallone, pouco seria sem este personagem que um dia cruzou o seu caminho.
Há ainda o cineasta Quentin Tarantino que cospe sangue e nos tranquiliza com a violência das suas histórias. Nem é preciso muita coragem hoje para dizer que o cinema e as novelas nos oferecem doces de leite ninho e chocolates nas cenas de extrema violência, que são nossa catarse. É por elas, pelas vinganças bem construídas, pela dor dos vilões transmutada em perda de braços e perdas como em Kill Bill que saímos com a alma lavada e prontos para uma vida em paz. Tudo fica lá, na sala de cinema onde nos sentimos seguros mesmo quando as cenas de extermínio se passam exatamente neste ambiente. Somos massacrados por tiros, facadas, a vida escorrendo corpos abaixo, mas se não estamos morrendo a cada momento, e renascendo! Pois se estamos vivos em meio a tantas exigências, de correr da doença, de seguir as regras da empresa que nos dá o trabalho, de atender à família que nos foi enviada, de aceitarmos a nós mesmos com tantas verrugas e pequenos defeitos nas válvulas coronárias!
Sim, o Festival de Veneza acerta com o prêmio “Jaeger-LeCoultre Glory to the Filmmaker Award” para Sylvester Stallone. Tarantino tem a fama que merece e eu espero cada novo filme seu para me tornar mais branda e mais serena após as cenas violentas. Nem todos compreendem, claro, como chegar a isso, como reverenciar o mal colocado na arte como inversão. Inverter isso no semblante é o objetivo alcançado. Talvez reveja o pouco que vi de “Rocky” e “Rambo” para tornar as tardes mais ternas. Talvez alugue um DVD que eu nunca alugaria, apenas levada pela escolha dos organizadores de Veneza, que de suas gôndolas passeando pelos canais que separam 120 ilhas, não poderiam errar na escolha.
Publicado no Hoje em Dia em 17/8/2009
 

Escrito por Leida Reis às 14h07
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06/08/2009


Para lá dos manguezais

 

Vou a Aracaju. O Mangue Seco não pertence mais a Sergipe, alerta o guia turístico no ônibus, mas é para lá que rumam os turistas que estão na cidade. Uma lancha em Porto do Mato vai singrar o Rio Real, deixando para trás (mas eles estarão na volta), meninos de 8 anos que esperam uma moeda depois de ajudarem a subir na lancha. Ao redor, os manguezais. Á frente, a água doce das férias em família. De olhos fechados, poderia ser até do mineiro próximo, o Rio São Francisco, ou o Amazonas, longínquo, mas o que se respira é a pureza na liberdade que sai pelos poros.

Atrás do povoado que ainda guarda a fama da Tieta de Jorge Amado, que sobrevive sob o fetiche da pele morena de uma mulher sem regras, estão as dunas. Uma chuva fina cai sobre os transeuntes na manhã da segunda-feira (será mesmo segunda-feira para quem está ali, na praia, ou não existem dias da semana ?) durante o passeio de bugre. Não tira a emoção, talvez a ressalte, pois o mar sob as águas que descem do alto até parece mais romântico, mais íntegro na sua condição de mar. De ser que domina e tangensia. Lá longe, o resto da família não sabe que da avó à neta, estão todos se divertindo bastante com tudo isso. Quem ganha é a lojinha na chegada à praia onde ficará o grupo, pois, molhados, alguns se esquecem que é eternamente verão no Nordeste e querem se aquecer comprando camisetas. Comprar, nestas circunstâncias, aliás, nunca é problema, mas ação de momento, como comer um espetinho de camarão. Não mais que dez minutos depois, as blusas já são jogadas de lado, abandonadas nas cadeiras, pois todos estão correndo para o mar e o maravilhoso sol que visita o lugar. Que diariamente atrai crianças e adultos para a areia, que levará às primeiras ondas, que tragará até o limite dos nadadores.

Há os que gostam de passear para as laterais, pensando que assim alargam suas mentes, e tentam gravar aquele barunho não na filmadora, mas no mais profundo espaço neurossensorial. Há os que não se desgrudam da sombra, como se não quisessem interagir, mas apenas constatar que o sol no mar pisando na areia existe mesmo e é belo. Outros, e outros, e outros, aproveitam tudo, e se fartam, temperando o corpo com o sal que levarão nas profundezas do cabelo por alguns dias. Almoço para quem não almoça, petiscos para quem aproveita para fugir da rotina. Água de coco, suco de mangaba, cerveja gelada. A volta do passeio na inversão dos transportes: bugres coloridos, lancha nominadas, o ônibus até a capital com seus 600 mil habitantes que devem ter uma qualidade de vida invejável, no trânsito mansinho ocupado por motoristas que sequer fazem teste de embreagem para tirar a carteira, já que não há morros ali. Praças, mercados e orla, ao menos, sem sinal de violência. Volto de Aracaju, que pode não ter lá grandes belezas naturais, mas com o seu fascínio guardado na bolsa.

 

Publicado no Hoje em Dia em 3/8/2009

Escrito por Leida Reis às 11h13
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23/06/2009


 
 

Morte à dança

 

O diretor de uma famosa companhia de dança, aos 90 anos, traça os planos para o futuro dos bailarinos. A morte. Ele define que dois anos após ser dado como morto, a companhia deixará de existir. Financeiramente, todos estarão garantidos com indenizações, e uma fundação vai cuidar dos trâmites e tudo mais que vier quando a música parar. Louvável? Todos deveriam comprar caixões e pagar planos de funerárias para não deixar pedras no caminho de quem fica? Pode ser, mas neste caso soa bastante cruel que os bailarinos renomados pela presença na C. recebam esta sentença de morte. Não poderia o diretor deixar que ela continue existindo depois que ele não estiver mais aqui, como acontece com tantos criadores em relação às suas bem-sucedidas criações? Parece-me tão egoísta a atitude, também para o público. Quem conhece ou poderia conhecer os espetáculos de tanta beleza não terá mais esta chance porque D. assim quer. Que o mundo, ao menos o mundo que ele domina, deixe de existir, já que ele mesmo não estará mais aqui.

É tão forte o apego material, como colocar fogo numa casa em que não há interesse em se morar e que está embargada pela justiça e não pode ser vendida. Doá-la ou emprestá-la não poderia ser uma hipótese? Muitas companhias de dança falaram da morte. Esther Wietzman apresentou no Rio de Janeiro, no mês passado, “O que imagino sobre a morte”. Os criadores são pessoas com mais de 40 anos que veem seus corpos já sem a tonalidade dos 20 e criam perspectivas múltiplas do fim da vida. Não há grandes invenções, mas a sensação que distribuem é da vida no corpo, do agora, do sentimento preso ao etéreo. E depois disso tudo, o fim. O simples fim que espera, que chegou também para coisas como o Muro de Berlim, o voo do 447 e até do diploma dos jornalistas. “Coisas, e a morte que existe nelas”, frase que já citei aqui, de Murilo Mendes.

Na semana que passou houve notícias de mortes de pessoas ao redor, algumas que eu nem conhecida, mas estavam ligadas de tal forma a conhecidas, que me renderam paralisações. São fatos cotidianos exceto para quem está bem próximo, serão inéditos sempre, inusitados e impensáveis. A morte pegará sempre o amigo e o parente de surpresa, ainda que seja a mais velha certeza, senão a única.  Mas o diretor da companhia de dança, sabendo que não escapará da morte – muitos de nós acha que sim, aliás – tenta apagar os rastros da vida. O problema é que são rastros reveladores, que levam a belos espetáculos e que deveriam ficar descobertos. Por que privar o mundo de uma maravilha antevendo apenas que não mais será o dono dela? Sem o mínimo poder sobre os neurônios deste ilustre bailarino, eu protesto. Porque se a morte é inevitável, a arte ao menos a vence e perpetua a vida. Vide as grandes pinturas, os filmes memoráveis, os clássicos da literatura.

 Publicado no Hoje em Dia em 22/6/09

Categoria: Crônica
Escrito por Leida Reis às 15h00
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Filosofia não tem preço

 

Uma frase preconceituosa dita por um colega: “Pobre não tem mesmo jeito. Sempre reclama que não tem nada. Quando acontece uma tragédia, diz que perdeu tudo!”. Remete ao velho dilema do ter e do ser.
Uma leitora de Januária, a quem indiquei o livro “A elegância do ouriço” da filósofa ficcionista Muriel Barbery, escreve dizendo que terminou a leitura e que gostou muito, definindo o livro com o contraste TER e SER. De fato, a personagem Reneé é a zeladora ranzinza de um luxuoso edifício residencial em Paris, que poderia nada ser além disso, não tivesse ela um gato com o nome Leon. Vamos descobrir que não é à toa, já que está homenageando o escritor russo Leon Tolstoi. Não ter mais do que um gato, mas ser mais que uma concierge de um prédio, ser ela mesma, com seus princípios. “Bétulas. Ensinem-me que não sou nada. E que sou digna de viver”, é um dos pensamentos profundos de Reneé.
Estou exatamente na leitura lenta e custosa de Guerra e Paz, e ultrapassei um pouco a metade das 1.200 páginas do livro de Tolstoi, Estou a ler, para usar a expressão dos escritores de Portugal, já que assinamos a unificação ortográfica. Ali também estão uma corte com seus príncipes e princesas, condes e condessas, palácios e saraus, além de jovens que preferem se alistar para a guerra em busca de uma honra. Ou seja, se já têm mais que o necessário, tentam ser alguma coisa. Não há personagens pobres ou insignificantes tentando se expor, mas a forma como os ricos e poderosos nos são apresentados definem bem como o escritor russo via esta classe social.
Quando momentaneamente a energia acaba e tenho que interromper a crônica, olho o alface plantado no vaso que fica na área. A retornar, penso que não dá, no meio de uma crônica, para fazer filosofia barata e dizer que precisamos mas do ser do que do ter. Aliás, é uma grande mentira. Quem somos sem os nossos balangandãs? É preciso deixar a hipocrisia na lixeira. Não existimos sem o corpo, corporal, corpóreo e às vezes corpanzil. Também ficamos completamente sem graça sem o conforto de uma casa e um meio de locomoção (ainda que seja o cartão do metrô). O que é uma mulher sem um belo par de sapatos de salto, e um homem sem um relógio que valha?
        O que não podemos é deixar de ser. Não necessariamente o dono da bola ou o mestre do jogo de RPG. Mas de sermos nós mesmos. De sermos o que viemos ser, estando no exato lugar em que estamos. De ter consciência do que significa ser e deixar ser, ou seja, que o outro seja ele mesmo diante de nós, ainda que, mesmo usando aparelhinhos, não sejamos capazes de ouvir tudo o que diz. Enfim, ser e ter. Na medida certa, um e outro. Sem preconceitos contra nós mesmos.
        Êpa, imperdoável, acabei filosofando!
 
Publicado no Hoje em Dia em 15/6/09

Categoria: Crônica
Escrito por Leida Reis às 14h58
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12/06/2009


 
 

O Cerrado é federal

 

 

 

Volto de Brasília com a impressão de que a cidade foi invadida por carros, mas trago uma experiência de terra e árvore, um contraste com o mármore na alma dos políticos e executivos da capital federal. Em dois anos é visível a diferença nos engarrafamentos, com eixos andando a passos de tartaruga. Semelhança com projetos no Congresso Nacional? No entanto, minha amiga Luciana me pega no hotel, no intervalo do seminário com pesquisadores e médicos, e vamos respirar o ar do Cerrado. A cidade, na sua concepção singular, o Lago Paranoá, o barulho dos motores, tudo fica para trás. Parece surreal que esteja morando ali, sem internet, sem TV a cabo, sem serviço de correios. Uma jornalista dinâmica acostumada à cobertura de Banco Central, ministérios, Receita e outros organismos que distribuem números para a interpretação do país. Agora, divide o caos da redação com a sombra de aroeiras, barbatimão e outras árvores de casca grossa e retorcida. Tem o seu refúgio. Nenhuma política econômica, nenhum pacote anunciado às 18 horas para apertar o horário de fechamento do jornal impedirá que acorde na paz da sua casa encravada no Cerrado, aonde se chega por uma estradinha de terra.

Na visita, não há tempo para a coleta dos nomes da vegetação. O tempo não passa para quem mora ali, mas não é assim para mim, preocupada em voltar para o evento. Apenas sou apresentada a uma abóbora grande e verde, dependurada na cerca. Riva prepara um delicioso almoço, tomamos suco de uva, ele me mostra livros escritos por parentes do Rio Grande do Sul. Luciana diz ter colhido limões. Em casa, na casa onde mora, guardada por um cachorro e um gato, à noite, aparecem grilos, mariposas, companhias que eu mesma tive nos anos de infância e adolescência.

O carro toma o caminho de volta. Também para Luciana é a hora do trabalho no jornal, de enfrentar o trânsito e as asas da cidade sem perdão. Fico no Gran Bittar e desejo a ela que faça uma excelente viagem a Buenos Aires, onde irá nesta semana, e de que tenho lembranças tão aconchegantes. Entro no hotel com um pouco de poeira na bota e acho graça. Estão ali canadenses, norte-americanos, jamaicanos, alemães, profissionais de São Paulo, Rio, Porto Alegre. Fazem bom proveito, certamente, das discussões sobre os desafios para contratação de médicos nos rincões dos países, nas áreas de pobreza que não oferecem aos profissionais o charme, por exemplo, de um “Dr. House”. Vão formular soluções, como já formulam. Voltarão para seus organismos mais ricos na busca de caminhos para a universalização do atendimento. Mas nenhum deles teve uma experiência como a minha, de lembrar que Brasília não é só concreto. Que não se livrará tão cedo de seus tentáculos naturais. Que mato, pássaros e mariposas também habitam o coração do país. 

 Publicado no Hoje em Dia em 8/6/2009

 

 

Categoria: Crônica
Escrito por Leida Reis às 11h51
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01/06/2009


 
 

A revolta dos filhos

 

 
Os pais estão escondidos na casa quando a invasão começa. Não pensaram que seria necessário, mas recuam até o último quarto e trancam a porta. Primeiro, ouvem o mar. Não levaram livros nem discos, apesar de saberem que terão que permanecer ali por bastante tempo. Sabem-se culpados, ou teriam reagido a golpes de faca e machados. Na casa vizinha, a mesma cena, com a diferença de que um pequeno livro pode ser encontrado na escrivaninha da adolescente que ali dorme comumente.
As residências são tomadas pelos jovens, uma a uma. Nada escapa. Nem os apartamentos luxuosos do condomínio inaugurado no verão, nem as moradias encravadas nos becos. Os jovens estão no comando. Eles sabem que os pais estão lá dentro, no entanto, perdoam parcialmente os castigos e a indiferença até ali e estão dispostos a cumprir o combinado. Apenas ficarão na parte principal, tomarão conta da geladeira e da televisão, receberão a visita que quiserem, abrirão as janelas para seres extraclasses, o diabo. Dormirão quando quiserem. Escolherão o trabalho que lhes convier.
Mas isso será mais tarde, pois neste final de semana, apenas cochilarão nas poltronas, comerão sanduíches em vez de jantarem, sujarão a sala de areia. Os pais já ouvem o seu burburinho, que se sobrepõe às ondas.
- Estamos perdidos, diz uma das mães.
- Não é nada. Eles vão se cansar dessa brincadeira. Voltarão para suas vidas, você vai ver.
- Não sei se terei estômago para esperar que isso aconteça. Mel e Bruno não parecem prestes a se cansarem.
- É porque só está ouvindo as vozes. Se visse os rostos, não teria tanto medo.
A mãe decide que ficará calada, pois o que disse até ali, no ouvido dos meninos, foram palavrões e ameaças. Não se lembra de ter ouvido as vozes deles, exceto algumas noites, quando não pôde dormir e teve dor de cabeça pela manhã. Os filhos, uns castigos do céu. Foram mandados mesmo para tirar seu sono,não permitir que viajassem mesmo quando tinham dinheiro. Quando tenta se apoiar na escrivaninha para descansar as pernas, depara com o pequeno livro e lê o seu nome: “Carta ao pai”, de Kafka. Tarde demais para ser lido. A mãe o descobre tão logo o coloca de lado. Não saberá do que se trata. O pai tampouco se importa, agora que o tempo lá fora pode ser chuva ou apenas nuvens escuras, e que nem as contas que chegam pelos correios vão mudar a realidade.
Os filhos ficarão por uns 15 dias talvez. Depois, não precisarão mais invadir as casas, já serão os seus donos por direito. Se nunca ouviram os mais velhos, a partir de agora trarão os ouvidos completamente tamponados. E os pais, se não foram capazes de falar e ouvir antes da tempestade, ficarão nos cômodos do fundo. Para sempre.

 Publicado no Hoje em Dia em 01/06/09

 

Categoria: Crônica
Escrito por Leida Reis às 14h55
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31/05/2009


 
 

O africano

Uma leitura fácil, rápida, mas não inocente. Le Clézio lembra a infância passada na África, de como aprendeu a brincar com os nativos e ter suas próprias emoções. A violência na destruição de cupinzeiros foi uma experiência marcante, só dividida com o irmão. O pai, o que conheceu aos 8 anos, depois de longos anos de separação por causa da guerra, da opção do médico pelo trabalho numa terra devastada, teve um papel pra lá de relevante. O livro é muito bem escrito, apesar da linguagem tão simples. Pudera, o escritor é nada menos que o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado. Aliás, é outro exemplo de como escrever pouco e com frases limpas é exemplo da verdadeira literatura. Lembranças pessoais, mas que trazem um pouco da história da Europa e sua relação perversa com a África. Para quem não conhece o escritor, uma forma de começar pelo fim, mas entender um pouco do que ele pretende.  Boa leitura!

 

Categoria: O que acabei de ler
Escrito por Leida Reis às 13h14
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