O quintal da mãe
Antes da praia, escolho entre a pescaria em Nova Ponte e a festa no Cruzeiro da Fortaleza. Imaginamos férias magníficas onde não há turismo, mas uma história de família entre Patrocínio, Uberlândia, Esmeril, um lugarejo encravado na infância com partidas de futebol no domingo à tarde. Meu pai já tinha cabelos brancos e era veloz como alazão. Seus parentes formavam o time, nós, pequeninos, a torcida, e só pelas fotos me recordo dos uniformes. Mas era na Copa do Mundo que ele sumia, ia para a cidade assistir aos jogos da seleção canarinho como se dizia, e ficávamos nos deliciando com as suas narrativas depois, fizesse sol ou chuva, derrota ou vitória. Respiramos os mesmos lugares, mas não somos os mesmos, somos é unificados no quintal da casa da mãe. Cenário montado para a quarta-feira à noite, quando sou a única a comemorar a derrota do Cruzeiro porque Clarice adormeceu antes do final. Irmãos, cunhadas, amigos dos irmãos, ninguém acerta uma aposta no bolão, que termina, entre moedas e notas, numa vasilha no alto do armário da cozinha para pagar a faxina de copos de cerveja e peixe assado.
Apesar das distâncias diárias, estamos em julho comendo nesta cozinha onde ele, o pai, nunca esteve, mas numa mesa que fez parte da morada da fazenda. A comida também mudou, as carnes guardadas em latas de gordura animal não existem, os biscoitos de forno, a pamonha feita em mutirão, a raça do cachorro seria outra se houvesse cachorros aqui, na Rua Cesário Alvim. Apenas flores, plantas que minha mãe vai cultivando vida afora. Frutas no quintal: morangos, acerola e framboesa, araçá, além de mexerica, uva, jabuticaba, cereja, carambola, mamãozinho. Bastante para uma casa no centro da cidade. Com saída para o sol, varanda e jardim de inverno. Nem tentarei descrever as flores que pendem dos vasos ou estão sólidas na terra.
A casa com o quintal é ponto de encontro. Ainda ontem, eram apenas dois irmãos a habitar a cidade, agora só Alexandre e eu estamos fora. Flávio e Aires voltaram a Patrocínio, enquanto Luís nunca saiu dela, e Ana Lúcia por quatro anos morou no exterior e outros tantos na capital. Completam este quadro que Maria, a mãe e avó, pinta, depois de um curso na Casa da Cultura. Os netos são cinco e com exceção de Gabriel, já com seus 15 anos e compromissos no Cefet, adoram levitar caminhando no quintal da casa onde, além das frutas vermelhas que eles mesmos colhem, há os passarinhos que eles espantam ou admiram: bem-te-vi, beija-flor, sabiá, pardal, pombo, sanhaço, maritaca. Pedro Augusto, Helena e Clarice fazem companhia às primas Ana Luíza e Rafaela, que também frequentam o quintal. Cecília ainda aguarda, no auge dos seus menos de três meses de vida. Que o lugar permaneça por muito tempo, dando liga à família.